*Esta peça de teatro foi escrita em 2009 para apresentação em um Sarau em homenagem ao Rio Grande do Sul.
Cena 1
As quatro meninas entram de pijamas, almofadas e com seus ursinhos de pelúcias. Organizam-se em uma meia lua e começam a conversar.
Ingrid: Ai gurias! Que bom que vocês puderam dormir aqui em casa!
Mara: É verdade, finalmente poderemos ficar até tarde conversando!
Paola: Bom, a minha mãe só deixou porque eu disse que nós tínhamos um trabalho para fazer!
Maria: A minha também! Falando nisso, já decidimos qual das lendas iremos usar no nosso trabalho!
Ingrid: Não, nem pensei nisso!
Mara: Eu já pensei em uma!
Paola: Eu também! Espero que não seja a mesma!
Maria: Então poderíamos fazer uma seção de lendas!
Ingrid: Claro, contamos umas para as outras e decidimos qual iremos apresentar para o resto da turma.
Paola: Eu quero começar com a minha!
Mara: Depois serei eu, pois a minha é super interessante!
Ingrid: E eu serei da comissão julgadora, afinal estamos no meu quarto, assim terei o poder da decisão!
*Mara faz uma cara de deboche, levanta e diz:
Maria: PODER DA DECISÃO!!!! Nossa, como você é importante!!!
Todas começam a rir, menos Ingrid.
Paola: Ta, vamos começar nossa seção de histórias!
Bom, a minha é conhecida como o Boitata!!!
Maria: O que, um boi que se chama Tatá?
Mara: Que história é essa?
Paola: Se vocês ouvirem, irão saber.
Ingrid: Começa logo Paola, temos ainda que ouvir as outras história.
Cena 2
Paola: Ta, certo vou começar:
Segundo o meu tio Alfredo, em tempos muito antigos, que a gente nem era nascida ainda, houve um grande dilúvio, que afogou os campos mais altos. Pouca gente e poucos bichos escaparam- quase tudo morreu.
Mara: Pobrezinho dos bichinhos!!!!
Ingrid: Cala boca Mara, deixa eu ouvir a história.
Paola: Mas a cobra-grande, chamada pelos índios de Guaçu-boi, escapou. Tinha se enroscado no galho mais alto da mais alta árvore e lá ficou até que a enchente deu de si as águas demoraram a baixar e tudo foi serenando, serenando... Vendo aquele mundaréu de gente e de bichos mortos, a Guaçu-boi, louca de fome, achou o que comer. Mas uma coisa estranha aconteceu!!! * Paola fica em silêncio olhando para o nada.*
Mara: Vamos Paola fala!
Paola olha para suas amigas com olhar de espanto e diz:
Paola: Ela só comia os olhos dos mortos. Segundo o meu tio, parece que os viventes daquela região, gente ou bicho, quando morrem guardam nos olhos a última luz que viram. E foi essa luz que a Guaçu-boi foi comendo, foi comendo...
Ingrid: Que nojo!
Paola: Mas foi com isso que com tanta luz dentro, ela foi ficando brilhosa, mas não de um fogo bom, quente e sim de uma luz fria, meio azulada. Parece que tantos olhos comeu e tanta luz guardou, que um dia a Guaçu-boi arrebentou e morreu, espalhando esse clarão gelado por todos os rincões. Os índios, quando viam aquilo, assustavam-se, não mais reconhecendo a Guaçu-boi. Diziam, cheios de medo: "Mboi-tatá! Mboi-tatá!", que lá na língua deles quer dizer: Cobra de fogo! Cobra de fogo! E até hoje o Boitatá anda errante pelas noites do Rio Grande do Sul.
Mara: Cruzes!!! Espero que não seja por perto das ruas de Porto Alegre!
Paola: Parece que ela ronda os cemitérios e os banhados, e de onde sai para perseguir os campeiros. Os mais medrosos disparam, mas para os valentes é fácil: basta desaprilhar o laço e atirar a armada em cima do Boitatá. Atraído pela argola do laço, ele se enrosca todo, se quebra e se some.
Maria: Nossa, essa história é bem legal! Até me deu medo!
Mara: Também, com a cara que a Paola fez, qualquer um ficaria com medo!
Paola: Engraçadinha! Quero ver se a tua história é melhor do que a minha!
Mara: Claro que é, pois a minha fala de uma história de amor e não de uma cobra maluca que devora os olhos das pessoas!
Ingrid: Ta, sem discussões! Vamos ouvir a tua história e depois decidiremos quem contou melhor!
Cena 3
Mara: Bom a minha história eu consegui na internet, mas eu a achei tão linda que resolvi trazê-la para vocês poderem conhecê-la, é a história do João de Barro.
Contam os índios que, há muito tempo, numa tribo do sul do Brasil, um jovem se apaixonou por uma moça de grande beleza. Melhor dizendo: apaixonaram-se. Jaebé, o moço, foi pedi-la em casamento. O pai dela perguntou:
- Que provas podes dar de sua força para pretender a mão da moça mais formosa da tribo?
- As provas do meu amor! - respondeu o jovem.
O velho gostou da resposta mas achou o jovem atrevido. Então disse:
- O último pretendente de minha filha falou que ficaria cinco dias em jejum e morreu no quarto dia.
- Eu digo que ficarei nove dias em jejum e não morrerei.
- Que provas podes dar de sua força para pretender a mão da moça mais formosa da tribo?
- As provas do meu amor! - respondeu o jovem.
O velho gostou da resposta mas achou o jovem atrevido. Então disse:
- O último pretendente de minha filha falou que ficaria cinco dias em jejum e morreu no quarto dia.
- Eu digo que ficarei nove dias em jejum e não morrerei.
Paola: Nove dias sem comer!!!! Isso sim que é amor, eu não fico nem 9 horas sem uma bolachinha!!!
Ingrid: Como eu digo: Só o amor destrói!
Maria: Fiquem quietas meninas estou gostando deste bravo índio!
Mara: Toda a tribo se espantou com a coragem do jovem apaixonado. O velho ordenou que se desse início à prova.
Enrolaram o rapaz num pesado couro de anta e ficaram dia e noite vigiando para que ele não saísse nem fosse alimentado. A jovem apaixonada chorou e implorou à deusa Lua que o mantivesse vivo para seu amor. O tempo foi passando. Certa manhã, a filha pediu ao pai:
- Já se passaram cinco dias. Não o deixe morrer.
O velho respondeu:
- Ele é arrogante. Falou nas forças do amor. Vamos ver o que acontece.
E esperou até até a última hora do novo dia. Então ordenou:
- Vamos ver o que resta do arrogante Jaebé.
Enrolaram o rapaz num pesado couro de anta e ficaram dia e noite vigiando para que ele não saísse nem fosse alimentado. A jovem apaixonada chorou e implorou à deusa Lua que o mantivesse vivo para seu amor. O tempo foi passando. Certa manhã, a filha pediu ao pai:
- Já se passaram cinco dias. Não o deixe morrer.
O velho respondeu:
- Ele é arrogante. Falou nas forças do amor. Vamos ver o que acontece.
E esperou até até a última hora do novo dia. Então ordenou:
- Vamos ver o que resta do arrogante Jaebé.
E quando todos se reuniram para ver o que tinha acontecido com o corajoso e apaixonada Jaebé....* Mara fica faz uma pausa.
Paola: Vamos, conta logo
Ingrid: Já sei, ele morreu!
Maria: Que horror, pára com esse pensamento negativo, o nosso índio fortão não pode morrer!
Paola e Ingrid: Fortão? Ahahahaha! Tu te empolgou com a história!!!ahahha
Maria: Parem de rir, eu apenas estou torcendo pelo amor!!!
Mara: Deixem eu terminar. Com eu estava dizendo....
.... quando abriram o couro da anta, Jaebé saltou ligeiro. Seu olhos brilharam, seu sorriso tinha uma luz mágica. Sua pele estava limpa e cheirava a perfume de amêndoa. Todos se espantaram. E ficaram mais espantados ainda quando o jovem, ao ver sua amada, se pôs a cantar como um pássaro enquanto seu corpo, aos poucos, se transformava num corpo de pássaro!
Ingrid: Que azar da índia!
Mara: E exatamente naquele momento, os raios do luar tocaram a jovem apaixonada, que também se viu transformada em um pássaro. E, então, ela saiu voando atrás de Jaebé, que a chamava para a floresta onde desapareceu para sempre
Contam os índios que foi assim que nasceu o pássaro joão-de-barro.
A prova do grande amor que uniu esses dois jovens está no cuidado com que constroem sua casa e protegem os filhotes. E os homens amam o joão-de-barro porque lembram da força de Jaebé, uma força que vinha do amor e foi maior que a morte.
Contam os índios que foi assim que nasceu o pássaro joão-de-barro.
A prova do grande amor que uniu esses dois jovens está no cuidado com que constroem sua casa e protegem os filhotes. E os homens amam o joão-de-barro porque lembram da força de Jaebé, uma força que vinha do amor e foi maior que a morte.
Cena 4
Maria: Ai que romântico! Eu também queria encontrar um guri que fizesse uma linda casa para mim!!!!
Mara: Daí gostaram? O que vamos fazer agora?
Maria: Eu voto pela história de amor!
Ingrid: Bom, as duas histórias são bem interessantes e as duas mostram a lendas que surgiram no Rio Grande do Sul!
Paola: Eu acho que seria legal mostrar as duas!
Maria: Ainda mais que não são todas as pessoas que sabem sobre estas histórias!
Ingrid: muito menos os nossos coleguinhas que não são nem um pouco “iluminados”
Mara: Vamos fazer o seguinte, vamos apresentar as duas e mostrar que o nosso estado não é feito apenas de histórias de guerra.
Maria: E sim, composto por histórias que falam do amor verdadeiro
Ingrid: E de histórias de sobrevivência.
Paola: E são estas coisas que marcam o povo de nossa terra: É UM POVO LUTADOR QUE BATALHA POR SUA SOBREVIVÊNCIA COM AMOR!
*Todas levantam e agradecem ao público.
OBS: As histórias devem ser contadas com ênfase e preferencialmente de pé! Isso para que possa interagir melhor com o público. As trocas de cena podem ser marcadas com a alternância de cores da iluminação cênica.
Autoria da Kate Fabiani Rigo